20.9.15

A Europa, nós e os migrantes



Infelizmente, bem razão tinha eu há uns dias atrás.
Tínhamos atingido o limite com a morte daquela criança? Quantas mais já morreram? Quantos adultos morreram, deste então? Quantos mais terão de morrer? E crianças?
Andamos a atirar a culpa paras as chefias da Europa, aliviamos as culpas, não é nada connosco era só o que faltava, e agora para ajudar até existe a Hungria e a Croácia que também já fechou sete das oito fronteiras e continua a não ser nada connosco.
Felizes que andamos, a vida continua, é lá tão longe e, tantos de nós que tanto se comoveram com a foto da criança morta, já começamos a ter medo dos terroristas, que, como está bem de ver, arriscam-se a morrer afogados e a ficar do lado da Sérvia ou levar cargas de porrada da polícia húngara, ou então mais subtilmente, perguntamos-nos como é que são tão pobrezinhos e têm dinheiro para pagar 6.000€ a traficantes
Acusamos a Europa, essa coisa abstracta e longínqua que nos impôs a troika e impôs a maior humilhação que se pode fazer a um povo de um outro país, que não somos nós, fica lá tão longe, como eu ia dizendo essa Europa abstracta e longínqua que tem uns habitantes, não sabemos bem quais, mas não nós, somos impolutos, deus nos livrasse, andamos cheios de boa vontade, Passos Coelho é que não ata nem desata, bem como as cimeiras que nunca mais acabam e que nunca resolvem nada.
Está tudo certo, mas somos nós, com os nossos votos e com a nossa abstenção que os pusemos lá. Lá no poleiro, a todos sem excepção, mas continuamos a assobiar para o ar por não ser nada connosco.
Que asco!


11 comments:

Observador said...

Permitir-me-ás sublinhar esta tua frase: 'Está tudo certo, mas somos nós, com os nossos votos e com a nossa abstenção que os pusemos lá. Lá no poleiro, a todos sem excepção, mas continuamos a assobiar para o ar por não ser nada connosco. Que asco!'

Boa semana.

inconfessável said...

Sublinhaste bem :). Era exactamente a essa frase que queria chegar.

Silenciosamente ouvindo... said...

Costuma assobiar-se para o ar tudo aquilo que nos incomoda...
Sei que não é correcto, mas o ser humano não é perfeito.
Gostaria muito que tudo isto se consiga resolver da melhor
forma possível.
Abraço amigo.
Irene Alves

inconfessável said...

Sabes, Irene, nesta altura de eleições e com os migrantes, só ouço toda as pessoas atirarem pedras aos governantes.
Esquecemos-mos frequentemente que somos nós, cada um de nós, que os põe a governar.
Isso irrita-me
beijo

Luis said...

Hoje, ontem e amanhã assobiamos para o ar. Assobiamos pelo que vem nas noticias, assobiamos pelo que não vem nas noticias mas sabemos que acontece. Assobiamos pelo que não sabemos e quem nem damos ao trabalho de saber. Assobiar não é arte nem passatempo, faz parte.
Felizmente ou infelizmente já não me irrita nem mete asco. Habituei-me ao cheiro. Como a maioria acha que cheira bem, se calhar até é cheiro a rosas.

Luis said...

"Migrantes" é ironia?
:)

inconfessável said...

Tenho mau feitio, não consigo habituar-me, Luis.
Não, não é ironia :)

esperto que nem um alho said...

A Europa podia fazer mais nesta situação de emergência, mas as emergências previnem-se, as cáries evitam-se com idas regulares ao dentista, os cancros evitam-se e curam-se com diagnósticos antes de se tornarem incuráveis.
O que quero dizer com isto é que devemos resolver o problema que nos caiu dos braços, mas a cura está a montante da Europa onde o rio de refugiados vem desaguar.
Enquanto se continuar a gastar mais em armamento do que em desenvolvimento, não vamos conseguir parar a torrente de refugiados de guerra e da miséria económica em que a África caiu.
O resto é o que se vê. Pensos rápidos e aspirina.

inconfessável said...

Completamente de acordo, esperto que nem um alho.
Sabes que o dinheiro que a Hungria gastou a fazer o muro dava para alimentar durante dez anos todos aqueles que têm passado pelo seu território?
É tudo uma questão de xenofobia.

Silenciosamente ouvindo... said...

Mais uma vez aqui estive a ler atentamente o texto.
Lembro-me todos os dias daquelas pessoas que fogem à morte...
Mas também há muitos outros sofrimentos.
Tenho familiares na Irlanda, com crianças pequenas,
o pai acaba de perder o emprego. É um problema pessoal,
mas ninguém está seguro em lado nenhum, por uma razão
ou outra.
Bjs.
Irene Alves

inconfessável said...

Eu sei que ninguém está segura em lado nenhum, Irene.
Só que com os migrantes, na sua grande maioria, não é uma questão de emprego ou desemprego por muito doloroso que seja. Eles fogem da guerra, eles fogem por sobrevivência sem já terem nada a perder, ou não embarcariam numa viagem que sabem de vida ou morte.