7.9.15

Vamos lá falar de nus




Tenho uma vizinha que foi minha colega de yoga e que me propôs que, em vez de irem sempre dois carros, uma semana era ela que me levava e na seguinte trocávamos. Nunca fomos amigas e a nossa convivência resumia-se às viagens, curtas, de ida e volta para as aulas de yoga.
Um dia insistiu para que a fosse buscar mais cedo, para me mostrar a casa. Fiquei surpreendida pois na minha casa só entram os meus amigos. A casa dela está num plano mais elevado do que a minha e calculei que deveria ter uma vista espectacular para o mar. Da minha, apenas o vemos num canto de uma das varandas. Tinha um óculo na sala. Espreitei para ver os barcos que estavam ancorados e para meu espanto dei com a minha casa. Ri-me. Só me vês à noite, saiu-me mal refeita da admiração.
As minhas cortinas estão colocadas de meio das janelas para baixo. Ela, à noite, vê tudo o que se passa na minha cozinha. Apenas na cozinha, única divisão que tem janelas viradas a norte. Costumo, em dias quentes, andar nua pela casa. Cozinho nua. Continuo a cozinhar nua. Não mudei ou modifiquei as cortinas. O problema, se é que há problema, está em quem olha e não em quem é olhado. Gosto do meu corpo e não tenho vergonha dele, além de que estou na minha casa onde faço o que quiser.
É comum que mulheres, grávidas ou não, sejam fotografadas nuas e sejam capas de revista. Fazem parte, normalmente, das chamadas famosas. Estamos fartinhos de ver em revistas ou mesmo em notícias, costumam ser estrangeiras e ninguém acha mal ou lhe passa pela cabeça criticar. Mas quando é uma portuguesa, chovem críticas de todos os lados.
Joana Amaral Dias é dona do seu corpo e pode fazer com ele o que bem quiser, seja onde for e quando lhe der na real gana. É bom termos a noção de que as críticas ao timing, ao ser política e à nudez se confundem.
Não tenho falsos moralismos nem pudores, acho que a nudez de uma mulher grávida e bonita é linda. Gosto de ver.
Sabem qual é a crítica que faço a Joana Amaral Dias? A de ter vindo desculpar-se ou justificar-se, não o devia ter feito, atacando quem a critica dizendo que o país é um paísinho.
Então ela é política, é a cabeça de cartaz de um partido e não sabe que as mentalidades não evoluíram, que os falsos moralismos e hipocrisias são transversais à sociedade portuguesa tanto social, como ideológica e religiosamente? Então ela quer ser eleita sem conhecer o povo de que faz parte? Mas de políticos destes estamos nós fartos, ou não?
Nada muda numa sociedade, num país, numa Europa, no mundo enquanto as mentalidades não mudarem.

4.9.15

Migrantes



Estou revoltada e viro-me contra tudo e todos. É melhor não continuarem a ler, porque estou mesmo irritada com quase todos os bloggers, jornalistas e ‘faceboquianos’.
Eu sei que alguns escrevem com pejo, com o mesmo pejo com que vim aqui invectivar por estar furiosa. Para ser sincera não vi imagens da tal criança, fujo de telejornais, mas tenho lido o que se escreve por todos as lados, desta vez não há como fugir.

Há assuntos que não consigo perceber, imagens que me chocam, que não quero ver por não adiantarem em nada ao horror em que vivo já há uns tempos.
Não me comovem, palavra que não me comovem, fazem-me pesadelos que não param quando as noites acabam, que carrego durante o dia e me distraem enquanto trabalho.
Não sei falar deste horror, sinto-o e sofro e não foi a criança que piorou o cenário. Já nada pode piorar a realidade que se abate todos os dias, já lá vão não sei quantos anos, sem ninguém se importar muito, é lá longe, a Itália que se vire, a Europa que trate do assunto e o mais fácil até é insultar os governantes, mas fazer alguma coisa para minorar o mal isso é que não. Virem para cá? Isso nem pensar que são muçulmanos e nós temos tradições culturais judaico-cristãs e ainda por cima estamos nas lonas e nem queremos pensar como se virará a Grécia.
Não tenho culpa se só agora acordaram, porque já houve muitas e muitas crianças que morreram nestas travessias e adultos também e para mim é tão mau e tão real ser uma criança como ser um adulto. São seres humanos como eu. Não foi na praia? ainda não tinham visto imagens? mas era preciso que fosse na praia? mas era preciso vê-las? E os ‘nossos’ militares que ajudaram todas as pessoas, como nós somos tão bonzinhos e agora a sociedade civil que está a querer ajudar e como nós somos tão generosos.
Uma merda é o que somos, iguais a todas as merdas de povos que andam por aí pela Europa que não querem saber de nada nem de ninguém.
Borrifámos, estivemos nas tintas, não quisemos ter nada a ver com o assunto, por isso, por favor, não venham agora falar da criança e dizerem que se atingiu o limite.
Estou farta de hipocrisias. Estou mesmo farta.
.

Barbara

Não há uma única canção dela que eu não gosto.
Esta é a minha preferida 

1.9.15

Coelho molho de vilão



Era um ritual que começava todos os anos a 1 de Setembro. A primeira vez dissera-me, como quem conta um segredo, vamos ali à copa para eu te ensinar a ser alquimista. Nunca tinha ouvido a palavra e perguntei-lhe o que queria dizer, ser alquimista é fazer alquimia. Insisti em que não sabia o significado da palavra, alquimia é transformar algo estragado, ou que parece já não prestar, em qualquer coisa muito boa, é simples mas é preciso ter paciência.
Em cima da bancada de madeira, estavam quatro garrafas alinhadas que na véspera tinham sido lavadas e bem secas pela Maria. Introduzira-lhes um pano fino de linho com a ajuda de um arame e rodara, rodara, até não haver nem um pouco de humidade.
A minha avó pôs um funil de ‘folha’ em cada uma, em cada funil um filtro de papel que encheu até meio com um pó negro, carvão vegetal. Abriu uma garrafa de vinho tinto e deitou com cuidado, para que o filtro de papel não rasgasse, uma porção que teria de ficar acima do carvão vegetal. Virou as costas e foi-se embora e eu fiquei ali, encostada à bancada de madeira, a olhar para as quatro garrafas à espera da tal alquimia, mas nada acontecia.
No dia seguinte, fomos olhar para as garrafas que tinham no fundo um pouco de líquido escuro. Olhei para a minha avó com ar desiludido. Agora pomos mais deste vinho azedo, feito pelo teu avô há mais de vinte anos, até as garrafas ficarem cheias de líquido. Depois recomeçamos o processo e lá para o fim do mês teremos um óptimo vinagre branco. Eu disse-te que tinhas de ter paciência se quiseres vir a ser uma boa alquimista.
Abriram-se várias garrafas do vinho do avô que eu não chegara a conhecer. Depois do carvão vegetal já estar impregnado, o processo tornou-se ligeiramente mais rápido e tanto de manhã como de tarde tinha de se acrescentar mais vinho para o nível estar sempre acima do carvão.
Foi já com o novo vinagre branco que no dia 29 de Setembro foi temperado o coelho de vilão que se fizera para os anos da minha prima. Orgulhosa, perguntei à avó se já era uma boa alquimista. Fez-me uma festa na cabeça e disse-me com ar terno, precisas de saber mais alguns processos para poderes vir a ser uma boa alquimista, mas não te esqueças que é necessária muita paciência e amor.
Tinha dezassete anos quando a minha avó me disse que aquele seria o último ano em que faria vinagre. Olhei-a assustada, andava mais curvada e cansada, no Inverno tivera uma forte pneumonia, recuperara mal, mas a avó acrescentou em tom leve são as últimas garrafas que tenho do ano em que o vinho tinto não teve grau suficiente para se poder guardar e o teu avô deixou-o azedar.
Fiz vinagre durante onze anos e tenho saudades

31.8.15

A Europa não mudou quase nada

                                  Postal do St. Louis em Maio de 1939 - Museu do Holocausto


Todos estes migrantes, mortos e sobreviventes, toda esta dor e terror, toda esta vergonha de uma União Europeia que se recusa em recebê-los, lembra-me o navio St. Louis, o navio da vergonha, que zarpa de Hamburgo em 1939, cujo capitão alemão Gustav Schröder, leva a bordo uns dizem 937 outros 1.125 judeus, com destino a Cuba que recusa deixar aportar o navio. Seguem-se os Estados Unidos, vários países da América do Sul e Canadá. Ninguém os quer receber, migrantes daquela época.
O capitão que tivera a lucidez de não procurar os portos europeus, talvez sabendo o que Hitler se propunha fazer, volta para trás e consegue que VÁRIOS países da Europa os recebam, países esses que foram invadidos, com excepção de Inglaterra.
Eram apenas cerca de mil e tiveram de ser distribuídos.
Esta nova recusa não augura nada de bom.

28.8.15

Campo



                                                            @Jeffrey T Larson
Os dias escoam-se tão lentamente como quando eu esperava pelo amanhã que nunca mais chegava e olhava para a ampulheta para ter a certeza que o tempo realmente passava.
Não há vento, o ar está calmo, parado e o calor convida a gestos parcos, lentos, lânguidos. A voz arrasta-se e baixa-se em conformidade com o som que não se ouve. Ao longe um cão ladra e sei que ao fim da tarde, pássaros irão desassossegar o lugar.
Não há enoturismo, nem turismo rural ou de habitação, também não há, felizmente, restaurantes com estrelas michelin ou gourmets, não há listas com explicações que nunca mais acabam, nem há espumas e coisas do género, no entanto, tomara muitos chefes cozinharem tão bem como a Ti Rosa.
Aqui, tudo é puro e duro, tão puro e tão duro. O que parece é. As couves são couves, as batatas são apenas batatas, os tomates são divinos, apanhados só quando já estão maduros. O cabrito é apenas cabrito assado e o pato com laranja nada mais é do pato assado com laranja, ah, mas o pato é caseiro, como também o é o queijo fresco de cabra que como ao pequeno-almoço.
À noitinha, na rua com os vizinhos, a conversa não acaba.