8.7.17

Nãosei que nome dar

Não sei se sabem como são estas coisas, mas eu preciso que me digam com brutalidade, ou a esperança renasce quando come alguma coisa, quando me sorri sem estar a chorar, quando o vejo a dormir sem dores.
Apesar de saber que os antibióticos foram retirados, já não há hipótese de o salvar, a esperança esta lá, já bem no fundo, mas existe e essa mata-me aos bocadinhos a dúvida, nos quilos que vou perdendo, no cansaço psicológico, já perto do esgotamento. Mas tudo vale a pena por essa esperança.
Não conseguia pensar, menos em dizer, vai morrer, mesmo com a evidência ali colocada bem em frente  de mim.

Hoje, uma antiga amiga, que trabalha, há 30 anos,  no hospital onde ele está, já sem pachorra para me aturar, ao telefone, disse-me 'estás cheia de sorte. As bactérias hospitalares costumam matar em quinze dias, no máximo em mês e meio e já o tiveste hospitalizado há sete meses. Está condenado'

Fiquei-lhe agradecida, agora só espero o desfecho que, infelizmente, não está assim tão perto.
Quanto tempo falta, não sei, estou à espera que os órgãos comecem a falhar, ou que haja qualquer hemorragia interna e a bem dele, espero que seja catastrófica. Sei apenas que quero estar com ele todos os minutos e as visitas são de quatro horas.
Não quero que morra sozinho. Não quero que morra sozinho e não o posso trazer para casa.

Não sei como vivo, não sei como vou viver sem ele.

5 comments:

Isabel Pires said...

Inconfessável, tenho andado a pensar nisto desde que publicaste... assim: volta e meia, vem.

Eu acho que ninguém sabe como são estas coisas porque com cada pessoa é diferente, acrescido da diferença de quem se trata.
Por uma experiência pela qual passei, julgo que nos sentimos (eu senti) mais apaziguados se tivermos a sensação de ter dito tudo, de não ter ficado nada por dizer. Estou a escrever isto e ao mesmo tempo a pensar que é preciso ter sorte de se conseguir fazer em tempo útil.
A pessoa estar lúcida ou não faz muita diferença, em relação a vários aspectos e alguns não são bons.

Se não há hipótese de retorno, é melhor que faças essa preparação interior, o luto, e de algum modo interiorizares esse sobressalto do momento em que te avisam ou que estás lá e vês.
Só vi uma pessoa morrer, na sala de fisioterapia, durante os meus tratamentos. Já contei isto, que está num suporte menos perene que estes dos blogues... Uma mulher que conheci ali. Nunca mais me esqueci.
Sinceramente, não sei dizer-te se nessas circunstâncias, preferia assistir ao final.

Seja o que for que vier, eu sei que vais reerguer-te porque nós temos, se também fizermos por isso, uma capacidade gigante de nos reestruturarmos.
Não vai ser igual daí para a frente, mas é o teu diferente possível.

Boa semana (apesar das circunstâncias)

Luis said...

...




(nunca sei o que dizer)

inconfessável said...

Sabem, apesar do que os médicos dizem, ele está a melhorar, aos bocadinhos.
Voltaram a pôr o antibiótico
Sabe-se tão pouco nos hospitais. É tão difícil fazer com que falem connosco.

Isabel Pires said...

Parecem ser boas notícias... Que bom.

Inconfessável, há uma ou duas coisas que queria dizer ali atrás e não disse.

Julgo que fiquei a pensar muito no momento da morte daquela mulher por causa da forma como morreu. Foi por sufoco e estava lúcida. Muitíssimo aflitivo. Tinha uma doença degenerativa que lhe causava atrofias progressivas na zona do tórax, com compromisso a nível da deglutição, da fala e da respiração. Era por isso que ela fazia fisioterapia todos os dias e encontrávamo-nos sempre às oito da manhã (ela sorria-me sempre e acenava) pelo que me ia apercebendo da situação, mas sem imaginar aquele desfecho assim, aflitivo, e tão breve.
Quero com isto dizer que a forma como se morre, e sobretudo a percepção que quem está presente tem da dor e do sofrimento, deixa-nos marcas diferentes e também nos leva a tomar opções diferentes quanto ao que disseste, quando é possível optar.
Por isso, e depois de ter pensado mais um bocado sobre o assunto, acho que consigo entender-te melhor.

Não acho que o tempo tudo cura e que faça com que tudo passe.
O tempo pode ajudar a amaciar as memórias, as do sofrimento e das perdas, quaisquer que sejam, e a trilhar o caminho da aceitação. Está lá e não é o tempo que faz com que custe menos (falo em termos genéricos de acontecimentos e circunstâncias), mas o tempo aviva-nos a consciência de que é preciso continuar.


(Não sei se fiz alguma coisa que impediu que a tua resposta ficasse publicada... Recebi e para mim está bem. Só não sei se fui a causadora de alguma coisa e tu preferisses de outra maneira.)

inconfessável said...

Isabel Pires

Nem penses que me disseste alguma coisa que caiu mal.
Comigo, nada cai mal, ou raramente me ofendo com respostas, palavra, desde que estejamos a trocar ideias.

Penso que respondi ao teu email directamente e não passei por aqui.

Assisti à morte da minha avó, que foi mais do que minha mãe. A morte foi calma, estava, dizia-se na altura, com arterioesclorose, e já não conhecia ninguém há dois anos.
Dizia muitas vezes que a única coisa que pedia a deus, era não ficar dependente de outros. Ficou e de que maneira.

Com a minha mãe, sabíamos todos que tinha um pavor da morte e de morrer sozinha. Também ficou dependente e acamada. Pedi para ficar em casa das minhas irmãs, onde estava, nessa noite, tinha a certeza que morreria em poucas horas e não me deixaram.
Soube que uma das minhas irmãs, percebeu que estava a morrer e foi para a sala para não assistir. Fiquei triste.

Não sei quem morrerá primeiro, que isto da morte pode aparecer de um minuto para outro.
Sei que sim, que tens razão, o tempo amacia tudo, mas demora e até lá passa-se pelo 'inferno'.
São sete meses e meio em hospitais vários, a assistir a muita incompetência e também a muitos bons profissionais, à espera de cura que não sei se aparecerá, se conseguirão, se a bactéria hospitalar vencerá ou não.
Tenho, obrigatoriamente, de encontrar esperança, porque ando muito perto do esgotamento, psicológico, mental e físico e por isso muito perto do desespero. Neste momento, não é o meu momento, é o dele.
beijinho